quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Enfermeira Ana Campos Reis





A enfermeira que «colecciona discriminações»


Em 1989, quando recebeu os 10 primeiros utentes seropositivos na Casa Amarela (Residência de Santa Rita de Cássia), Ana Campos Reis estava longe de imaginar o quanto aquele dia iria determinar o resto da sua vida profissional.

Volvidas mais de duas décadas, continua, de pedra e cal, a lutar pelos direitos dos doentes infectados, que não têm colo, nem tecto. A história da enfermeira que esteve na proa de um projecto pioneiro na área do VIH/SIDA em Portugal.

Pouco passava das 10 da manhã. Mas Ana Campos Reis, uma das primeiras funcionárias a chegar ao serviço, já tinha visitado os equipamentos da área que dirige, antes de chegar às instalações da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), localizadas perto da Igreja de São Roque, em Lisboa. A SCML é uma espécie de «segunda casa» para a enfermeira – devido ao número de horas que passa no serviço –, que, desde os anos 80, se dedica à problemática do VIH/SIDA. Sem grandes contas de cabeça, afirma, imediatamente, que já passaram 40 anos desde que começou a trabalhar na SCML. Ao longo de quatro décadas já conheceu muitas histórias da vida real. Algumas sem o «final feliz» a que os filmes nos habituaram.

Quando, em 1989, abriu a Casa Amarela (o nome como é conhecida a Residência de Santa Rita de Cássia), a enfermeira encontrou o medo e a tristeza profunda estampados nos rostos dos 10 utentes infectados que lhe entregaram – seis destes doentes ainda continuam vivos. O receio da morte assombrava aqueles homens e mulheres, infectados com VIH/SIDA. O futuro era incerto e a doença, à época, ainda era uma «ilustre desconhecida». «Se não fossem adultos, dava vontade de pegá-los ao colo. Mas, em vez disso, segurava-lhes na mão e apelava à calma», recorda, esboçando um sorriso.

Ana Campos Reis, uma católica convicta, não se deixou esmorecer pelas dificuldades ou as opiniões alheias. Nunca os olhares de soslaio ou as más-línguas a demoveram de continuar a dedicar-se à causa – o VIH/SIDA. Na altura em que decidiu enveredar por este projecto, o vírus da imunodeficiência humana ainda era entendido como uma sentença de morte para a grande maioria dos doentes.

«Os primeiros 10 utentes marcaram muito a minha vida», confessa emocionada. «Orgulho-me por ter ajudado a construir os caminhos da inclusão.» A sua determinação era tão forte que nunca deu ouvidos a comentários pejorativos, que, teimosamente, insistiam em tratar os indivíduos seropositivos como «cidadãos de segunda categoria». «Partilhava todas as tarefas do quotidiano com eles, conversávamos e ríamos todos juntos», lembra. «Sofrer às vezes, rir sempre» é um princípio que mantém ao longo dos anos.

A enfermeira sabia que a discriminação e o estigma iam ter um lugar na sociedade. Ainda assim, não cedeu a algumas palavras menos abonatórias. «Alguns dos doentes chegavam com recados. Havia quem dissesse que os utentes comiam todos juntos, como se fosse algo fora do normal. Tomavam as suas refeições em pratos bem-lavados e com a toalha passada a ferro. Os utentes eram todos muito cuidadosos com a higiene pessoal», afiança. «Este rigor profissional evitou medos descabidos», fundamenta.






Missão possível

Para a Ana Campos Reis, a discriminação é algo a que, infelizmente, se habituou com o tempo. Hoje em dia, até se ri de comportamentos segregativos. Mas não nega, à partida, alguns comportamentos que já conhece: «Actualmente, no século XXI, ainda continua a haver um tratamento desigual (mas disfarçado) em relação aos indivíduos infectados. Contudo, criaram-se posições politicamente correctas, uma espécie de snobismo da ignorância», lamenta.

Preconceitos à parte, nada interrompeu a missão de ajudar os seropositivos e doentes com SIDA. Aliás, mesmo que estivesse cansada, ao final de um dia inteiro de trabalho (quando exercia actividade na Casa Amarela), nunca negava a ajuda a quem chegasse depois do seu horário de expediente. «O que me levava a voltar atrás e não olhar para o relógio?», interroga. «Penso que era o meu rigor profissional e o espírito de missão, que ainda prevalece.»

No decorrer de todos estes anos, os projectos de vida eram delineados a partir de simples estratégias: evitava falar na palavra morte e, ainda, no dia de amanhã. Acima de tudo, passava sempre uma «mensagem de alento e incentivo na implementação dos estilos de vida saudáveis», que iriam garantir a esperança de vida e o tempo necessário para ir aparecendo nova medicação – o que acabou por acontecer, efectivamente. «Embora muitos (dos utentes) já tenham partido, o aparecimento de fármacos anti-retrovíricos foi a luz ao fundo do túnel para aqueles que aguardavam, pacientemente, uma solução para a doença.»

Como nem sempre era fácil encher de esperança os utentes que acompanhava, fez de tudo para conhecer melhor a identidade de um vírus que, até à data, teimava em resistir a uma cura. «Sempre tentei informar-me sobre o VIH/SIDA. Frequentei seminários e congressos para poder estar actualizada. Tive o privilégio de merecer a confiança e os ensinamentos de médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, especialistas de Infecciologia dos hospitais e da própria Prof.ª Odette Santos Ferreira.»

A enfermeira, que trabalhou em regime de exclusividade na SCML, garante que a vontade de ajudar o próximo sempre norteou o exercício das suas funções. «Se não tivesse este espírito de missão, poderia ter exercido a minha actividade profissional numa clínica qualquer. Fiz deste trajecto a minha estadia no convento», conta. Ironia ou não, a verdade é que, em criança, Ana Campos Reis ambicionava ser freira. A justificação? «Talvez por influência das freiras que apareciam no Alentejo (sua terra natal) e que davam catequese.»

Mas o espírito de entreajuda fora incutido pela família. «O meu primeiro trabalho foi como monitora numa colónia de férias, em que participaram os filhos dos trabalhadores da Herdade, onde o meu pai era feitor. Como sempre vivi na fronteira entre os que tinham muito e os que nada possuíam, procurei que os mais desfavorecidos tivessem algo mais.» Esses foram os ensinamentos que conservou do pai, dos avós, dos tios e dos amigos da família. «Em casa do meu pai passaram histórias complicadas», lembra. «Várias crianças ao longo dos anos foram acolhidas na nossa casa por graves dificuldades da família.»

«A Enfermagem escolheu-me»

Ana Campos Reis sempre teve um fascínio pelo ensino. Mas, apesar de ter acalentado a vontade de ser professora, a sua vida sofreu uma mudança de 180 graus, apenas num único fim-de-semana. «Não me recordo de ter escolhido a Enfermagem. Penso que a Enfermagem escolheu-me a mim.»

Tinha 15 anos quando começou a trabalhar no Hospital de Santana, como auxiliar de acção médica. Tudo aconteceu «naturalmente» e por força das circunstâncias: «A minha irmã mais velha sofreu de uma patologia grave e teve de ser internada no Hospital de Santana, na Parede. Numa das visitas, em que, supostamente, deveria ficar apenas uns dias, acabei por permanecer até hoje…»

Quando terminou o seu curso de Enfermagem, optou pela carreira de Saúde Pública: especializou-se em Enfermagem Comunitária e iniciou funções de chefia num centro de saúde da periferia da cidade de Lisboa, um bairro problemático onde havia prostituição e consumo de droga. Quando a comunidade científica começou a alertar para uma nova problemática que iria afectar em muito a Saúde Pública, a enfermeira não teve mãos a medir. «Sendo uma patologia que se transmite por líquidos biológicos, a minha aposta foi investir na prevenção, prevenção e prevenção!»

Espírito de serviço público

«Coleccionadora» de discriminações (por ter nascido no interior do País, por ter tido um cancro, por dedicar-se ao VIH/SIDA, por ser enfermeira e até por ser mulher), Ana Campos Reis admite que, apesar de sempre ter tido «fibra» para enfrentar as inúmeras dificuldades, houve dias em que pensou em desistir. «Por cansaço, tive situações em que considerei a hipótese de abandonar a minha actividade. Mas, na manhã seguinte, levantava-me e ia trabalhar. Assumi que, enquanto tiver saúde, quero continuar e ter alguma utilidade para os outros. Tenho, provavelmente, um espírito de serviço público. Sempre achei que o funcionário público

é aquele que tem mais responsabilidade em servir bem a população», considera.

Razões para continuar a ajudar os mais desfavorecidos não lhe faltam ao longo destes anos. As histórias que lhe passaram pela frente são motivo mais do que suficiente para continuar, de alma e coração, a apoiar a população afectada pelo VIH. Quando estava prestes a completar 40 anos de idade, recebeu no atendimento, uma mulher da mesma faixa etária, grávida pela terceira vez. Esta gestação, em vez de ser um estado de graça, foi a revelação de uma «desgraça»: provavelmente, tinha sido infectada pelo marido. «Foi um caso que me marcou imenso. Não consegui terminar o atendimento até ao fim, porque estava com o coração nas mãos. Esta foi, para mim, a confirmação de que a doença pode bater a qualquer porta.»

Ainda recentemente, conta, recebeu o filho de um doente infectado que «chorava copiosamente» pela patologia do pai. Mas momentos dolorosos não escasseiam no seu percurso. «Os funerais dos utentes eram, igualmente, alturas difíceis», diz. «Sempre lutei para que, acima de tudo, as pessoas acompanhadas pela DIAIBE (Direcção de Apoio à Inserção e Bem-estar), tivessem os mesmos direitos que os outros. Em determinadas alturas, reconheço que fui “leoa”, porque, para defender estes doentes, enfrentei tudo e todos.»


Nos primórdios da criação da Casa Amarela, a lotação estava esgotada: 10 camas para o mesmo número de doentes. «Houve uma pressão para se admitir toda a gente. Mas não tínhamos capacidade.» Até ao nível do recrutamento de pessoal foi difícil encontrar colaboradores com «o perfil certo». Hoje, ultrapassada esta questão – o serviço conta com quase 100 funcionários, «o que permite dar uma resposta mais ampla às necessidades» que surgem no âmbito do VIH/SIDA.

«Desde 1989, fomos criando uma oferta de serviços em função da evolução da doença e da nova medicação. Os utentes rodam pelas diferentes valências (apoio residencial, centro de dia com toma observada directa, apartamentos terapeuticamente assistidos, apoio domiciliário e formação) de acordo com estado de saúde.» A Residência de Madre Teresa acolhe os utentes em situação de maior dependência, ao passo que, na Residência de Santa Rita de Cássia, estão os doentes em situação de menor fragilidade. Os com maior autonomia residem nos apartamentos.

Da província para a cidade

Nasceu no interior alentejano, mais concretamente, no concelho de Odemira, na freguesia de Colos, há quase 58 anos. «Nasci numa noite especial, porque Nossa Senhora de Fátima, que estava a percorrer o País naquele ano, passou em frente à casa dos meus pais, quando a minha mãe deu à luz.»

Embora tivesse vindo para a capital com apenas 15 anos, e apesar de gostar de espaços verdes, não se arrepende de ter trocado o campo pela cidade. «Lisboa é a minha segunda casa. É cá que tenho a minha família e o meu trabalho. Não tenciono voltar ao Alentejo». Foi na capital que se casou e constituiu família e é aqui que reparte os dias entre o trabalho e a família.

No seu gabinete, os três quadros pendurados na parede dispensam apresentações para Ana Campos Reis: Madre Teresa de Calcutá, Santa Rita de Cássia e Florence Nightingale (1820). A freira, a «advogada» das causas perdidas e a enfermeira – esta é a tríade que resume a devoção de Ana Campos Reis ao mais desfavorecidos.

A confiança no optimismo faz com que o sorriso rasgado nunca abandone o rosto da directora da DIAIBE: «Tenho imensa esperança e confiança nas coisas boas. Confio na capacidade e nos afectos. Ainda assim, admito que produzo mais quando estou contrariada, porque não quero viver aqueles momentos difíceis.»

Ainda que concorde ter um espírito curioso e inquieto, a enfermeira diz que está à procura de momentos de tranquilidade. Nesta busca interior, os livros têm sido fiéis companheiros, principalmente, os policiais. «Li a colecção completa da Agatha Christie. Talvez este gozo me tenha ajudado a compreender o ser humano, naturalmente.»

Sedenta de conhecimento, a enfermeira não consegue esconder o gosto pela formação: «Os meus tempos livres dividem-se entre a família e os estudos.» Como sempre sentiu uma curiosidade fervilhante, após a especialidade em Saúde Pública, Ana Campos Reis fez várias pós-graduações e um MBA. Na calha, está, entretanto, o Doutoramento.

Ana Campos Reis acompanha funerais de quem não tem ninguém. Lindo gesto de solidariedade, não acham? E já acompanhou 800 funerais!



1 comentário:

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Banhinho

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ROGER

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