quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Amor...








O amor é grande e cabe 
nesta janela sobre o mar. 
O mar é grande e cabe 
na cama e no colchão de amar. 
O amor é grande e cabe 
no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 4 de julho de 2011











Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, 
há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam 
mas há pessoas que simplesmente aparecem 
em nossas vidas e nos marcam para sempre.


Cecilia Meireles



domingo, 5 de junho de 2011

Um dia...





"Los dos frente al mar" de Nancy Ramirez Espósito




Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos 
Irmãos vivos do mar e dos pinhais. 
O vento levará os mil cansaços 
Dos gestos agitados irreais 
E há-de voltar aos nosso membros lassos 
A leve rapidez dos animais. 
Só então poderemos caminhar 
Através do mistério que se embala 
No verde dos pinhais na voz do mar 
E em nós germinará a sua fala. 

Sofia de Melo Breyner Andresen



quarta-feira, 11 de maio de 2011

Retrato de uma princesa desconhecida








Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino.

Sophia de Mello Breyner


sábado, 30 de abril de 2011

Entre Março e Abril






Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?

O cheiro puro de só da terra!
não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, doces flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel
abertas no canteiro junto ao tanque

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
- que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?

Eugénio de Andrade


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