domingo, 26 de setembro de 2010

Foi para ti...









Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo


Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre


Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, em "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O amor é o amor...









O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois?
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?
Alexandre O'Neill



domingo, 19 de setembro de 2010

Adormecida...




Adormecida

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."


Castro Alves



domingo, 22 de agosto de 2010

Invento-te... Invento-me...





Invento-te

Invento-me

Sem formas

Nem cor

Nem perfis

Nem tela!

Nós dois...

Esculpidos

No silêncio de uma praia

Que a anarquia do mar

Afaga e flagela!

Invento-te

Barco transparente

Em indecisos traços

Adivinhando

Ais libidinosos

No sexo da água

Em que me torno

Ousada ondulada bela

A estremecer

Quando de manso

Me rasga capitosa

A volúpia acerada

De uma vela...


Julieta Lima


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Era uma vez...




Era uma vez... uma menina que nasceu para ser feliz, Felicidade se chamava.
Foi a única filha de um casal que lhe proporcionou uma infância feliz. A Felicidade foi educada com todo o carinho. Entrou para a escola com seis anos e a mãe fez-lhe uns bibes muito lindos de popelina e bordado inglês. Estudou nos melhores colégios. Toda a vida foi uma sonhadora. Sonhava encontrar um príncipe encantado. Tinha sido preparada para isso, para casar-se com um príncipe rodeada de criadas e aias sempre às suas ordens, exactamente como se de uma princesa se tratasse.

Este foi o seu sonho que uns anos mais tarde passou a ser pesadelo. Ela não tinha sido preparada para a vida cruel que a rodeava e que ela repudiava. Casou com um plebeu pobre que lhe proporcionou uma vida de quase pobreza e um filho maravilhoso. Pode-se dizer que viveram uma vida de ilusão, sempre viveram para além das suas possibilidades, sonhando com o dia em que seriam ricos e que se tornariam reis de um reino de faz-de-conta. O seu reino ficava nas nuvens de um céu longínquo. Não queriam regressar à Terra, sabiam que se regressassem a sua vida dariam uma volta de 360 graus. E assim viveram ali durante muitos anos.

Até que um dia o plebeu pobre desistiu de viver naquela vida de faz-de-conta. Regressou à Terra e sem se dar conta abandonou tudo e todos para nunca mais voltar.

A Felicidade ficou só no seu reino com o seu filho e verificou com amargura que até o seu nome tinha desaparecido, já não era mais Felicidade, agora chamava-se Angustia. Quem a vê passear com o filho, os seus "súbditos" têm pena dela e todos a cumprimentam à sua passagem. Ela continua a sonhar voltar a recuperar o seu antigo nome. Sabe que vai ser difícil. Angústia está a preparar-se para enfrentar o futuro com a ajuda de um amigo muito querido que conheceu há muitos anos, algum tempo antes de ter subido ao reino do faz-de-conta. Ela está muito confiante, sente no seu intímo que vai conseguir e está a fazer um esforço para melhorar a sua vida.

Vai deixar em breve o reino em que ela deixou de acreditar e terá que aprender a viver com os pés bem assentes na Terra pois só assim conseguirá ser feliz.

Flor

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